segunda-feira, maio 28, 2007

Janela sobre uma mulher/1

Abro espaço para um texto clássico, que, de vez em quando, me faz refletir.

“Esa mujer es una casa secreta.
En sus rincones, guarda voces y esconde fantasmas.
En las noches de invierno, humea.
Quien en ella entra, dicen, nunca más sale.
Yo atravieso el hondo foso que la rodea. En esa casa seré habitado. En ella me espera el vino que me beberá. Muy suavemente golpeo la puerta, y espero.”
Eduardo Galeano, Mujeres

segunda-feira, maio 07, 2007

Foi por causa de um gesto

Mais um conto. Fazia tempo que eu não postava nada aqui. Talvez ele precise de correção, mas depois eu vejo isso. Fique a vontade.
Eu não sou um assassino e quero deixar isso bem claro. Tudo bem, concordo que tenho sido um pouco cruel ultimamente. Mas nunca cometi nenhum ato de insanidade, ou que não soubesse as consequências.
Sempre vivi tranquilamente, em paz com todos os homens e mulheres, aliás, sou um defensor ferrenho do respeito ao próximo. Isso até conhecer aquela mulher terrível. Eu até gostava dela - no começo de nossa relação, apenas - mas aos poucos fui me afastando.
Me afastei sim, por causa um gesto apenas. Era um gesto displicente, ingênuo, mas que não retrava a verdadeira personalidade daquela mulher. É verdade! Pode te parecer estranho, mas tente se colocar em meu lugar e ter que conviver com esse gesto quase que diariamente.
Não sei como cheguei a tal ponto. Mas tente entender qual o motivo pode levar uma mulher casada, com seus dois filhos crescidos, com muitas posses, se permitir ato tão infantil. Seu pequeno gesto me deixava tão enfurecido que coisas terríveis me passaram pela mente.
Está certo. Nem sempre fui bom pra ela. E naquela semana fui um sangüinário ao cortar sua cabeça. Passei dias, tempos, pensando em como fazer isso, esperando o momento certo. Um coisa dessas não poderia ser feita em público. Nunca!
Certamente, alguém inteligente como tu irias rir das idéias que se apossaram de mim. Sei que estás admirado com meu sangue frio, mas não te assustes, por favor. Foi apenas uma vez - para ser franco, acho que faria outras.
Podes até pensar, e estar afirmando em tua mente, que realmente sou um assassino, qualificado. Reafirmo e lhe asseguro que não sou. Apenas planejo com muita antecedência o que faço, para que não fiquem resquícios dos meus atos. Assassinos não são assim. Agem por instinto. Eu uso a sabedoria. Mas deixemos de falar de mim, por ora. Falemos dela, a terrível.
Sua audácia me consumia. Entendes que um homem não consegue viver à sombra de uma mulher? Pois comigo era assim. Minha criação patriarcal jamais me permitiria tal ato. Homens são mais fortes, são seres superiores. Mas digo isso com todo o respeito. Vós, mulheres, hão de compreender. Ela era tão audaciosa que nunca me fizera mal algum, mesmo com todo meu desprezo. Nem mesmo a voz havia levantado contra mim. Mas aquele gesto... ah sim, o gesto. Ele me deixava louco, parece que só eu percebia. Só eu me irritava. Mas não queria me precipitar. Aguardei o momento certo para cometer tal ato.
No primeiro mês de relacionamento aquilo era irrelevante. Conversávamos normalmente como seres civilizados. Ela queria saber sobre mim. És capaz de suspeitar, como eu suspeitei, que ela pudesse estar interessada em mim. Naturalmente, descartei essa possibilidade rapidamente. Nos encontrávamos diariamente. Tínhamos amigos em comum e trabalhávamos em locais próximos. Vê-la era inevitável.
Com o tempo, fui percebendo seu gesto. Passou a ser irritante. Em muitas de nossas conversas tentei lhe falar sobre isso. Sempre sem sucesso.
Pois nem lhe falei como ela era. Uma mulher, com uma aparência dura. O semblante era sempre tenso. Por vezes parecia estar descontraída. Seus olhos eram saltados, com grandes bolas pretas no centro. Orelhas pontudas e finas. Um corpo esquelético. Ninguém haveria de achá-la bonita. Nem sei como casou! Era um monstro.
O tempo continuou a passar e minha atração por aquele gesto aumentou. Não suportava mais olhar. Meu corpo não conseguia criar barreiras que o fizessem tornar a ser irrelevante. E logo passou a ser insuportável.
Uma raiva tão grande se apossou de mim. A crueldade. Queria dar cabo a toda irritação. Quis dar um tiro, a princípio. E depois de pensar profundamente, cheguei a conclusão que seria muito alarmante.
Fui para casa e por uma semana não saí de meu quarto. Senão apenas para alimentar-me e cumprir minhas necessidades fisiológicas. Tudo para planejar como iria acontecer. Havia descartado o uso de arma de fogo. Pensei em diversas possibilidades. Cheguei a ler o Manual do Assassino - não que eu seja um, como lhe expliquei. Tive, então, a brilhante constatação que deveria ser feito em minha casa. Convidei-a para um jantar e disse que poderia trazer sua família.
Fiquei deveras ansioso com a oportunidade. Podes imaginar o quanto. No entanto, seguiria meu plano até o fim. Iria aguardar até que cometesse o gesto falho. Conversávamos, todos, na sala de estar. Eu, ela, seu esposo e seus dois filhos. Por horas ficamos ali, até irmos para a mesa onde o jantar estava servido.
Olhava fixamente para ela. Comer? Nem pensar! Podes imaginar por quanto tempo eu esperei por tão grande oportunidade? Aquele momento era único. Até que então ela ergue sua mão e levou à cabeça. Desceu os dedos pelo cabelo e chegou as pontas. Enrolava os cabelos em seus dedos. Logo desviei o olhar. Entretanto, o infernal gesto se repetia com maior frequência. A cada instante repetia mais por mais vezes, com pequenos intervalos. Estás atento? Tal gesto me deixava inconfortável. Dominei-me e fiquei quieto. Irás reconhecer no fim de tudo que tentei evitar que acontecesse. Olhava para sua família e procurava me controlar.
Como poderiam conviver com uma mulher monstruosa mexendo em seu cabelo como uma criança ingênua. Isso era inadmissível! Eu procurava me controlar, mas sabia, que atrás da porta que dava acesso à sala de jantar, estava o instrumento do terror. A qualquer instante ele seria cometido. E foi num movimento longo e incessante que não me contive. Pedi licença - imagines tu, eu sendo educado, como posso ser um assassino?, - levantei-me, peguei o machado que estava à minha espera e num único movimento, combinado com um grito ensurdercedor, deitei a cabeça daquela terrível mulher sobre a mesa do jantar. Ali, em frente a sua família atônita.
Olhei para eles. Perguntei-lhes como aturaram aquela mexida no cabelo tanto tampo. Eles me questionaram sobre o que eu estava falando. Vês, ninguém percebia nada. Não poderia conviver com uma atitude tão brutal. E rapidamente matei os três. A morte seria melhor que o trauma de viver com a imagem da cabeça dentro de um prato.
Não espero que me consideres um assassino por ter matado e enterrado os quatro membros de uma família. Aliás, eles estão no quintal de minha casa e lembro deles em minhas preces noturnas. Entendes meu caso? Espero que sim, pois é impossível, insuportável, enfurecedor, conviver com uma mulher que insiste em mexer no seu cabelo, num gesto repetitivo. Ah... essas mereçem morrer .