sábado, março 17, 2007

Perdas Definitivas

Abro espaço aqui para a publicação de um conto, produzido há tempos atrás, mas que merece seu lugar. Espero que apreciem.
Enquanto a música tocava suave no rádio, ela, sentada na poltrona da sala, olhava para o nada. Seus pais a fitaram, querendo descobrir o que se passava dentro da cabeça daquela jovem. Ela não prestava atenção em nada, viajava em seus pensamentos mais profundos. Naquele momento, qualquer um que quisesse não conseguiria penetrar no seu mundo. O mundo cheio de sonhos, cheio de utopias.
Roberta era assim, decidida. Queria transformar o mundo. Sua geração acabava de redescobrir os hippies, a contracultura. Estava redescobrindo o passado obscuro e ocultado por anos. Enquanto estava parada, sentada, Roberta pensava no verdadeiro significado da vida, e no sentido que queria dar à sua.
Pensava no amor que tinha por Marco. Ela o disputava com uma grande amiga. Não sabia mais como proceder diante daquela situação. Por isso estava ali, na sala de casa, ouvindo suas músicas preferidas. Ouviu a rádio local, mudou de estação, e não feliz com as canções colocou um antigo disco de vinil de seu pai.
Discos de vinil estavam na moda. Tudo o que há anos atrás era considerado peça de museu, estava voltando para as mãos dos jovens. Jovens como Roberta. Ao entrarem em contato com o século passado pareciam viver naquele tempo. Retornaram às velhas práticas. Enviavam cartas, pois tinham se esquecido dos e-mails. Não possuíam mais aparelhos de telefone celular, nem ouviam músicas em pequenos compactos eletrônicos.
Eram outros tempos. Os jovens estavam voltando a pensar, e no meio de seus profundos pensamentos, aquela menina de cabelos loiros cacheados, olhos claros e bem abertos, se fixou no nada. Ali ficou por horas.
Enquanto pensava sobre seus problemas amorosos, Roberta lembrou-se de uma pequena história sobre duas sereias. Uma história que havia escutado há muito tempo atrás. Apaixonadas pelo mesmo ser, um humano, disputaram seu amor. Sabiam que ele não poderia viver no mundo das sereias. E sabiam que elas, as mulheres-peixe, não poderiam viver no mundo dos humanos.
Em um fim de tarde nublado, ao ver sua irmã sereia, bem mais jovem e simpática, pura de coração, sentada na mais alta pedra daquela praia, com o homem cobiçado por ambas, a maldade subitamente se apossou do coração da sereia mais velha. Que por sinal, era bela, mas não tão simpática e pura como a jovem irmã.
Jurou para si mesma, diante daquela visão, que faria um pacto com o Mar e com a Lua. E assim o fez. Ao cair da noite os convidou para uma rápida conversa. Queria saber dos dois como teria o amor de um humano para sempre. Queria trazê-lo para seu mundo de sereia. Mas antes que começasse a receber as respostas recebeu o alerta da amiga Lua. “Cara amiga Sereia, tenha primeiro a certeza de que ele quer você. O amor de vocês precisa ser sincero”.
De pronto, tomada de toda maldade, a sereia mais velha respondeu: “Nos amamos profundamente. Tenha certeza disso”. Mais uma vez recebeu um alerta. Desta vez quem lhe avisava era o Mar: “Sereia. Saiba que se o amor de vocês não for sincero nunca mais ninguém verá a este homem”. Apesar de ter sido tocada por uma ponta de preocupação aquela sereia foi adiante em seu plano. E recebeu todas as instruções dos amigos. Mar e Lua deixaram claro como ela deveria proceder. “Em noite de lua cheia, na subida da maré, você deverá trazer este homem até a areia da praia, o mais próximo que puderes das ondas. Deitarás com ele, e os dois de mãos dados cairão em sono profundo. Depois de três ondas vocês serão levados para os céus e ocuparão o lugar das estrelas. Estarão para sempre lado a lado”.
A sereia mais velha teria que esperar por mais um mês até que chegasse outro período de lua cheia. Queria seguir as instruções corretamente. Durante esse tempo tentaria conquistar o amor daquele homem, a quem tanto cobiçara. No entanto, a cada dia ele passava mais tempo, sentado na pedra mais alta da praia com sua irmã. Eram conversas longas. De longe ela avistava os risos dos dois. Por fim, durante todo aquele período de espera, não conseguiu uma aproximação, o que a deixava preocupada em relação às conseqüências do seu ato. Mas aquela sereia não recuava em suas decisões, estava disposta a ir até o fim.
Até o que o dia esperado chegou. A sereia fez tudo corretamente. Procedeu conforme as instruções do Mar e da Lua. No entanto, não esperava pelo final. Depois da terceira onda, abriu seus olhos e se viu sozinha, deitada. O Mar havia levado o amado. Só restaram as marcas de seu corpo na areia. A sereia saiu rapidamente daquele lugar, assustada e arrependida pelo que havia feito.
Sua irmã, o verdadeiro amor do humano, ao ver que o jovem havia sido tragado pelo mar, indagou: “Oh, Mar! Que fizeste com meu amor?”. Eis que prontamente recebeu a reposta: “Sereia jovem e bela. Seria mesmo teu amor? Há tempos atrás sua irmã esteve aqui, conversou com a amiga Lua e comigo, e desejou isso para os dois”.
Naquele momento a jovem sereia não queria pensar em sua irmã, queria apenas saber se poderia se encontrar com o amado. Ao que o Mar respondeu: “Deite-se ao lado das marcas do corpo dele e ponha a tua mão sobre a mão dele. Se realmente o amas, após a terceira onda estarás com ele no céu, como uma estrela”. Ela assim o fez, e após a terceira onda a pura e bela sereia brilhava no universo. Pra sempre ao lado de seu amado.
Roberta lembrava-se dessa história todas as vezes que Marco vinha à sua mente. Aliás, Marco era uma imagem recorrente. Durante todo o dia, Roberta não conseguia se desvencilhar deste pensamento.
Júlia, sua grande amiga, diariamente ligava para Roberta para falar de sua paixão por Marco. Roberta com toda sua pureza dizia para Júlia que ela deveria seguir o coração, se realmente o amava deveria declarar-se para ele. Estranhamente, aquela jovem guardava seu amor no coração, não tocava no assunto com ninguém, evitava até mesmo pensar nisso. E quanto mais evitava, mais pensava.
Marco não era um símbolo de beleza. Seu modo de vestir era pouco convencional, sempre com a barba feita e o cabelo penteado para trás. Poderia vestir uma camisa por dois ou três dias. Era um ser estranho, ou melhor, diferente.
Roberta não sabia explicar o que a atraía naquele rapaz. Pensou em várias possibilidades. Sem chegar a conclusões concretas, suspeitou que fosse o conjunto da obra, o todo. Por outro lado, Júlia sabia muito bem o Marco representava para ela. Marco era o símbolo de sua adolescência. Desde seus tempos de menina ela nutria essa paixão. Chegava ao ponto de persegui-lo. E quanto mais ela dizia que o amava, mais ele se afastava. Por vezes, Roberta tentou aproximá-los, sem sucesso.
O amor que ambas disputavam, inconscientemente, tornava sua amizade cada vez mais profunda, mesmo que isso possa parecer contraditório. E ao mesmo tempo em que as unia, também as separava.
No tempo certo Roberta estava disposta a se declarar, mas antes teria que tirar Júlia do seu caminho, sem ter que usar de nenhuma tática. Queria que isso fosse natural.
E na manhã seguinte recebeu uma notícia inesperada. Júlia estava se mudando, naquele exato momento, para uma cidade distante. Não haveria tempo para despedida, nem para choro. No instante que recebeu a notícia, a jovem foi tomada pela alegria e pensou que, enfim, o caminho estava aberto. Com a mudança, Júlia estava levando consigo a paixão por Marco. Era a oportunidade que por tanto tempo ela esperou.
A alegria foi tanta que na mesma noite Roberta foi procurar por Marco. Queria contar tudo. Queria contar para ele sobre o seu amor. Que havia permanecido calada por respeito à sua amiga. Havia agido de maneira diferente àquela sereia e, ao invés de tentar destruir uma paixão, por muito tempo incentivou Júlia a contar-lhe. Mas o destino havia preparado o caminho para que os dois ficassem juntos e esse era o momento. Era chegada a hora.
Chegou à casa de Marco ofegante. A mãe do jovem ocupou-se de dar-lhe um copo d'água, que rapidamente foi emborcado. Trocou-lhe o copo por outro cheio, que novamente foi esvaziado com rapidez. Atirou-se à conversa sem preocupações, pois a conhecia de longa data. Cuidando apenas de mantê-la entretida. E logo se arrependeu. Mudou para um assunto mais profundo que a levou à única notícia que poderia ser dada. Marco havia ido embora. Nada poderia ser mais constrangedor para Roberta.
Aquela que havia refreado todo seu amor acabara de descobrir que seu amor estava longe. Tão longe quanto sua amiga. Aliás, foi por causa dela que Marco havia ido embora. Marco amava Júlia e não queria perdê-la. Para Roberta o amor, que parecia ter ganhado seu espaço, era agora uma perda definitiva.

terça-feira, março 13, 2007

Linhas

Nas linhas que dividem o ser
Entre a loucura e a procura
Entre a dependência e a procedência.
Estão os mistérios da vida
Uma louca utopia
Deverá se tornar uma realidade
No momento em que o ser
Atravessar essas linhas
No exato instante que o homem descobre
A sua capacidade de não saber
Quem é e de onde vem
E do que precisa.
De que depende a sua vida?
Girando a cabeça para todos os lados
Vida vazia
Cheia de mistérios
Tarde ingrata
Manhã nublada
Noite e dia se confundem na escuridão
Pois já não existem linhas que os separem
Não existem mais linhas
Existem mais linhas
Mais linhas
Linhas
Minhas